Dia da Independência, sob uma trégua que ninguém admite
A 1 de outubro, 66.º Dia da Independência da Nigéria, o Presidente Tinubu anunciou uma era de prosperidade em que os agricultores poderiam trabalhar as suas terras em segurança. Durante a noite, supostos combatentes do Boko Haram, cujo nome significa «a educação ocidental é proibida», tinham executado aldeões que apanhavam lenha no Borno e atacado postos do exército no Adamawa. Tudo isto durante uma trégua que nem Abuja nem o Boko Haram admitem.
A era da prosperidade
A 1 de outubro, a Nigéria completou 66 anos. Num discurso intitulado «Da Reforma à Prosperidade», o Presidente Bola Tinubu declarou encerrada a era das reformas e iniciada a era da prosperidade. Em novembro de 2025, tinha decretado o estado de emergência de segurança em todo o país. Desta vez, a segurança surgiu sobretudo como condição para a prosperidade, observa o analista Kabir Adamu no ThisDay. O Presidente chegou mesmo a descrever como seria:
«Uma Nigéria em que o agricultor possa cultivar a sua terra em segurança.»— Presidente Bola Tinubu, discurso do Dia da Independência, 1 de outubro de 2026
Campos seguros, versão Borno
Na noite anterior, na zona de Marte, no estado do Borno, cerca de 130 quilómetros a nordeste de Maiduguri, supostos combatentes do Boko Haram emboscaram aldeões que cuidavam das suas culturas e apanhavam lenha. Segundo habitantes citados pela AP, jovens e anciãos da aldeia foram amarrados e executados. A polícia contabilizou 15 mortos e três desaparecidos. Os corpos foram enterrados na noite do Dia da Independência. No domingo, depois de mais 13 corpos terem sido encontrados no mato, o chefe de uma milícia antijihadista elevou o balanço para 28 mortos, segundo a AFP.
A Amnistia Internacional classificou as mortes como uma violação grave do direito internacional humanitário e instou as autoridades a protegerem as comunidades rurais. O Presidente tinha-o prometido na véspera. Em janeiro, a Human Rights Watch já tinha apontado a incapacidade das autoridades para proteger as comunidades, numa altura em que o Boko Haram retomava os ataques mortíferos contra civis no Borno.
Dezasseis neutralizados, centenas a pé
Nessa mesma noite, no estado do Adamawa, combatentes atacaram postos do exército em Garaha e Garkida. O exército afirma ter perdido três soldados e «neutralizado» 16 atacantes perto de Boima. Segundo o presidente do conselho local de Hong, citado pelo TruthNigeria, um guarda florestal também foi morto e dez soldados ficaram feridos. O site acrescenta que quatro mulheres e uma criança de oito anos foram raptadas e que centenas de aldeões caminharam até 35 quilómetros durante a noite para chegar à cidade de Gombi.
No Borno, as vítimas foram enterradas segundo os ritos islâmicos. No Adamawa, as aldeias que ficaram desertas eram cristãs, refere o TruthNigeria. O Boko Haram não discrimina.
Uma trégua, alegadamente
Em setembro, o The New Humanitarian noticiou que Abuja observava desde junho um cessar-fogo secreto com a fação do Boko Haram liderada por Bakura Doro, após a libertação de 360 aldeões raptados em Ngoshe, alegadamente mediante um resgate de cinco mil milhões de nairas. O Governo nega ter pago e a Presidência remete as perguntas para o conselheiro de segurança nacional e para o Ministério da Defesa. O próprio juiz da sharia do Boko Haram negou, num vídeo, a existência de qualquer trégua. Uma trégua com uma fação continua a ser uma guerra com as outras.
A era da prosperidade começou, disse o Presidente. Em Marte, começou com um enterro.

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