Jihad e o estabelecimento de um califado global

Chiu, há um cessar-fogo

Desde junho, Abuja estaria a respeitar uma trégua secreta com o Boko Haram, selada após um alegado pagamento de cinco mil milhões de nairas que o governo nega ter feito. Em Adamawa, homens armados descritos como combatentes do Boko Haram passaram sete horas a matar doze aldeões e raptaram uma menina de dez anos. Os soldados chegaram vinte horas depois. A discrição, pelo menos, ficou garantida.

Paz, no mais estrito sigilo

Oficialmente, a Nigéria não negoceia com o Boko Haram, que classifica como organização terrorista, e o presidente Bola Tinubu prefere anunciar 30 000 novos recrutas e quatro novas divisões do exército. Em junho, o exército anunciou com orgulho ter resgatado, numa operação baseada em informações de inteligência, 360 aldeões raptados em março em Ngoshe, perto da fronteira com os Camarões. Segundo uma investigação do The New Humanitarian, foram na verdade libertados após negociações que terão incluído o pagamento de cinco mil milhões de nairas, cerca de 3,7 milhões de dólares, precisamente a quantia que o Boko Haram tinha exigido publicamente. O governo nega ter pago qualquer resgate. Desde então, um cessar-fogo secreto estaria a vigorar com a fação liderada por Bakura Doro, e poderá ser prolongado por 40 dias. Não abrange as outras fações nem o grupo rival Estado Islâmico na Província da África Ocidental (ISWAP), e há fontes que alertam que o Boko Haram poderá aproveitar a pausa para transferir equipamento para os montes Mandara.

O investigador de conflitos Malik Samuel suspeita de «um cessar-fogo temporário e tático» que nada altera no rumo da guerra. Em redor de Ngoshe, os ataques pararam. Noutros lugares, ninguém parece ter sido avisado.

Entretanto, em Adamawa

Na noite de 6 de setembro, mais de 50 homens armados em motorizadas, descritos pelos habitantes como combatentes do Boko Haram, entraram em Nzangula, uma aldeia agrícola de Gombi. Dispararam, incendiaram e pilharam das 20h45 às 4h00: dez lojas, três dispensários, a igreja local. Doze pessoas foram mortas, dez homens e duas mulheres, confirmaram as autoridades estaduais. Uma menina de cerca de dez anos, que acabara de entrar no ensino secundário, foi levada. Os soldados chegaram 20 horas depois. O porta-voz da polícia não atendeu o telefone.

Quer os atacantes pertencessem à fação que assinou a trégua, a outra, ou ao ISWAP, que reivindicou em abril um massacre de 29 pessoas num campo de futebol de uma aldeia vizinha, os aldeões não foram consultados. Uma semana depois, outro ataque matou quatro pessoas na vizinha Hong. O exército, por seu lado, mantém estatísticas impressionantes: 1106 combatentes do Boko Haram e do ISWAP mortos e 758 colaboradores detidos desde abril de 2025, segundo o seu comandante regional. Em Nzangula, chegou simplesmente tarde.

«A erosão gradual do monopólio estatal da violência.»— Godwin Okoko, especialista em paz e conflitos, sobre o ataque a Nzangula

Uma semana na vida do Middle Belt

O estado de Plateau teve o seu próprio fim de semana. A 13 de setembro, homens armados dispararam contra um autocarro perto de Jos, matando nove passageiros. A 18 de setembro, homens armados abriram fogo sobre um mercado de legumes em Mangu quando os comerciantes arrumavam as bancas, matando três pessoas. Nesse fim de semana, morreram mais oito pessoas em Barkin Ladi e Riyom, entre elas um pastor abatido a caminho do culto de domingo. Em Benue, seis polícias foram mortos em quatro dias na mesma comunidade: a polícia fala de bandidos, as testemunhas de milícias fulani. No estado do Níger, mais de 100 pessoas foram raptadas numa só noite. Pelas contas da TruthNigeria, a semana terminou com 41 mortos e mais de 100 raptados.

Uma questão de palavras

O Boko Haram e o ISWAP combatem em nome da jihad, e as igrejas e as aldeias cristãs estão entre os seus alvos. Também mataram milhares de muçulmanos, e no Middle Belt a terra, a etnia e a religião estão emaranhadas. Analistas citados pela TruthNigeria afirmam que as autoridades evitam o enquadramento religioso por receio de alimentar a narrativa da perseguição aos cristãos antes das eleições de 2027. Os homens que saquearam a igreja de Nzangula não mostraram tais reservas.

Na Nigéria, a paz é segredo de Estado. As matanças, infelizmente, são públicas.

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