Síria: cristãos atacados por uma multidão e depois convocados pela polícia
Em 3 de outubro, uma multidão vinda de uma cidade sunita vizinha voltou a invadir Suqaylabiyah, cidade cristã no centro da Síria. As forças de segurança convocaram em seguida dezesseis de seus jovens para interrogatório. Na mesma semana, pelo menos dez alauítas foram mortos em dois tiroteios distintos. Na nova Síria, a justiça é imparcial: também se interessa pelas vítimas.
Uma briga entre jovens, com tiros
Em 3 de outubro, dois jovens de Qalaat al-Madiq, cidade sunita situada a quatro quilômetros, tentaram intimidar um comerciante de Suqaylabiyah, cidade majoritariamente greco-ortodoxa perto de Hama. Eles levaram uma surra, voltaram para casa e retornaram à noite com uma multidão, segundo a Christian Solidarity Worldwide (CSW). Casas e lojas foram saqueadas, tiros foram disparados a esmo e uma mulher alauíta ficou levemente ferida.
A mídia estatal noticiou uma briga entre jovens que terminou com o ataque a uma loja, no singular. O governo da província de Hama culpou uma "incitação sistemática entre os componentes do povo sírio", sem dizer qual componente havia levado as armas. O diretor do distrito de Ghab prometeu um processo judicial "sem generalizações". Dizer quem atacou quem seria, ao que parece, uma delas.
"Os cristãos sírios não buscam o caos nem a vingança."— Padre Fadi Sankari, sacerdote ortodoxo de Suqaylabiyah, no Facebook
Iguais perante a lei, sobretudo as vítimas
As forças de segurança prenderam pessoas nas duas cidades, entre elas dois cristãos, libertados em 5 de outubro, que haviam sido detidos por causa de confrontos posteriores com supostos agressores. Acima de tudo, dizem os moradores, elas confinaram a população de Suqaylabiyah em casa em vez de perseguir os invasores. Dezesseis jovens cristãos foram então convocados para interrogatório, segundo a SyriacPress, e alguns dos detidos da cidade foram levados para um centro de segurança em Qalaat al-Madiq, após queixas de moradores de lá. Alguns dos queixosos teriam participado do ataque. Jogando em casa. Em 13 de outubro, o destino deles ainda era desconhecido.
Reconciliação à moda síria
A cidade conhece o roteiro. Em dezembro de 2024, duas semanas após a queda de Assad, combatentes encapuzados incendiaram sua árvore de Natal. Os novos governantes culparam estrangeiros e prometeram uma solução rápida.
"A árvore será restaurada e iluminada até amanhã de manhã."— Um líder religioso do Hayat Tahrir al-Sham, dezembro de 2024
Em 27 de março de 2026, depois que jovens mulheres teriam sido assediadas, dezenas de homens passaram pelos postos de controle sem ser incomodados, saquearam lojas e atiraram contra cafés e contra uma estátua da Virgem Maria, segundo a organização de direitos humanos Syrians for Truth and Justice (STJ). Uma testemunha conta que uma patrulha respondeu ao seu pedido de ajuda com um "Some daqui" e depois acompanhou os agressores. As igrejas cancelaram as celebrações públicas da Páscoa. O acordo de reconciliação assinado em 11 de abril, sob a égide do distrito de Ghab, previa uma comissão de avaliação de danos e a renúncia às ações judiciais. Em maio, constatou a STJ, nenhuma vítima havia sido indenizada.
A Portas Abertas classifica agora a Síria em sexto lugar entre os países onde os cristãos são mais perseguidos, contra o décimo oitavo lugar um ano antes.
Controle de identidade, sob nova direção
Os alauítas, comunidade de Assad, estão em situação pior. Na noite de 30 de setembro, homens armados passando-se por agentes de segurança pararam um micro-ônibus que levava trabalhadores para casa perto da ponte de Masyaf, na zona rural de Homs, verificaram suas identidades e abriram fogo, segundo o Observatório Sírio de Direitos Humanos. Pelo menos sete pessoas morreram, todas alauítas, segundo o Observatório. Os controles de identidade sobreviveram à queda do regime: só mudaram os controladores. O comandante da segurança interna de Homs jurou que o crime "não ficará impune". Em 4 de outubro, três jovens alauítas foram mortos a tiros perto de Tartus. Os massacres do litoral de março de 2025, nos quais uma comissão governamental contabilizou 1.426 alauítas mortos, tiveram suas primeiras sentenças dezoito meses depois.
Suqaylabiyah tinha cerca de 20 mil habitantes quando Assad caiu. Restam cerca de 16 mil, segundo o The National. Nesse ritmo, as autoridades em breve poderão anunciar que a calma voltou de vez.

Comentários
Sem comentários