Pena de morteViolação dos direitos das mulheresViolência doméstica

No Irão, as mulheres assassinadas pagam a diferença

A 14 de outubro, o Irão enforcou um antigo advogado que tinha assassinado a mulher, jornalista da agência noticiosa estatal IRNA. Como o Código Penal Islâmico atribui à vida de uma mulher metade do valor da de um homem, a família dela teve primeiro de lhe pagar a diferença, retirada do próprio dote da vítima. Em três semanas, pelo menos mais 20 homens foram enforcados por homicídio.

Cartoon satírico: numa sala de tribunal iraniana, um juiz clérigo observa uma balança em forma de forca, com um laço vazio entre os pratos; num dos pratos está uma figura masculina, enquanto uma mulher enlutada, de chador preto, despeja moedas de ouro de uma caixa de casamento persa no outro prato, ao lado de uma figura feminina, até os dois lados ficarem equilibrados.
No Irão, a balança da justiça só se equilibra depois de a família da mulher assassinada pagar.

Uma esposa a metade do preço

Mansoureh Ghadiri Javid era jornalista da IRNA, a agência noticiosa estatal. Em novembro de 2024, o marido, Ahmad Parviz, antigo advogado, matou-a em casa, em Teerão. A mãe dela exigiu o qisas, a retribuição equivalente, e ele foi enforcado na prisão de Ghezel Hesar a 14 de outubro.

O artigo 550.º do Código Penal Islâmico fixa o preço de sangue de uma mulher em metade do de um homem, e o artigo 382.º tira a conclusão: um homem que mata uma mulher só pode ser executado depois de a família dela lhe pagar a metade em falta. Segundo a Iran Human Rights, as quantias necessárias para abrir caminho até à forca saíram do mehrieh, o dote devido à esposa. Foi com o dote dela que a família comprou o direito de ver o assassino enforcado.

Quando o assassino de Elaheh Hosseinnejad, de 24 anos, cujo homicídio tinha indignado o país, foi enforcado em maio, foi o próprio poder judicial que pagou a diferença, porque a família não tinha meios. O tesouro público pode intervir quando um caso provoca grave perturbação da ordem pública, explicou um juiz do Supremo Tribunal. Uma mulher assassinada vale tanto como um homem quando o país está suficientemente revoltado.

Só dinheiro, nada de escolas

Em Bandar Abbas, Hamidreza Mohammadi, de 42 anos, pai de dois filhos, foi enforcado a 19 de outubro por uma morte ocorrida numa rixa. A família tinha-se oferecido para pagar o preço de sangue que fosse pedido e para financiar uma escola ou uma clínica em nome da vítima. Os familiares recusaram. Em Gorgan, Hossein Ali Baranzehi, de 50 anos, baluche e pai de três filhos, foi enforcado a 30 de setembro porque a família não conseguiu reunir a quantia exigida. Já tinha sido levado à forca pelo menos três vezes.

O poder judicial publica todos os anos um preço indicativo, mas não existe qualquer limite legal para o que as famílias podem exigir, sublinha a Iran Human Rights. Quem escolhe a morte é incentivado a assistir ao enforcamento e até a executá-lo pelas próprias mãos. A justiça, no Irão, pode funcionar em regime de self-service.

Intencional, seja qual for a intenção

O Código Penal só conhece um tipo de homicídio intencional, punido com retribuição sejam quais forem as circunstâncias, explica a Iran Human Rights. Mehdi Mirzayi, de 22 anos, lur, foi enforcado em Malayer a 12 de outubro por uma facada desferida durante uma briga, sem intenção, segundo uma fonte. Tinha sido detido «mesmo depois de ter feito 18 anos», e o pai foi aconselhado a não contratar advogado, para não melindrar a família da vítima. Reza Rajabian, curdo de 23 anos, foi enforcado em Shirvan a 15 de outubro por uma morte ocorrida num confronto quando tinha pouco mais de 18 anos; o primo foi enforcado no mesmo processo em junho.

Em Ahvaz, a 21 de outubro, Atiyeh Jamei, de 40 anos, árabe, foi enforcado apesar de, segundo as fontes da Hengaw, estar a defender a família de dois homens armados: o tribunal ignorou a alegação de legítima defesa.

Mártires da estrada

A 11 de outubro, Danial Jahanian, de 37 anos, foi enforcado em Bandar Abbas pela morte do agente da polícia Reza Ehterami, em 2022. Segundo a agência Mehr, o «mártir» caiu num confronto com contrabandistas de combustível; o procurador, Aref Akbari, afirmou que a sentença foi proferida a pedido da família do agente. A Iran Human Rights conta outra história: agentes à paisana alvejaram Jahanian nas duas pernas, ele perdeu os sentidos, e um segundo carro atropelou o polícia. A página do relatório policial sobre essa segunda colisão foi apagada com corretor líquido, afirma a ONG.

No dia seguinte, em Minab, Abolhassan Ranjbar, de 39 anos, baluche, foi enforcado pela morte de um polícia de trânsito num posto de controlo em 2023: um acidente durante uma operação stop que degenerou em violência, segundo a Iran Human Rights, que refere também falsas testemunhas. A Iran International noticia que foi igualmente Aref Akbari quem anunciou este enforcamento.

«Quem perturbar a segurança da sociedade, seja de que forma for, será tratado com firmeza.»— Aref Akbari, procurador de Bandar Abbas, à agência Mehr

Firme, mas discreta

Entre 30 de setembro e 21 de outubro, as organizações de defesa dos direitos humanos registaram pelo menos 21 enforcamentos por homicídio, a maioria dos quais nunca anunciados. Segundo a Iran Human Rights, as fontes oficiais anunciaram menos de 7% das 747 execuções por homicídio que contabilizou em 2025, 48 das quais de mulheres, um recorde desde 2010. Em 566 outros casos, as famílias optaram pelo dinheiro ou pelo perdão.

A República Islâmica deixa às famílias a tarefa de fixar o preço de uma vida. Limita-se a fixar o desconto para as mulheres.

Versículos e hadiths relacionados com este artigo

Fontes

  1. 01 Iran Internationaliranintl.com · 2 artigos 1 2
  2. 02 Iran Human Rights Societyiranhrs.org
  3. 03 Mehr News Agencymehrnews.com
  4. 04 Khabaronlinekhabaronline.ir
  5. 05 Iran Human Rightsiranhr.net · 10 artigos 1 2 3 4 5 6 7 8 9 10
  6. 06 Hengawhengaw.net
  7. 07 Hengawhengaw.org · 3 artigos 1 2 3
  8. 08 IranWireiranwire.com
  9. 09 HRANAen-hrana.org · 2 artigos 1 2
  10. 10 Iran Human Rights Documentation Centerupr-info.org

Países

Palavras-chave

Comentários

Sem comentários

Os comentários são revistos pela redação antes da publicação.

Publicidade
Publicidade

Newsletter

Receba os nossos últimos artigos

Subscreva a newsletter do Delirium Islamicum: os nossos novos artigos, diretamente na sua caixa de correio.

Os nossos parceiros